Café geneticamente modificado pode ser o único a sobreviver no planeta

Depois da água, o café é o líquido mais consumido do mundo. Contudo, as mudanças climáticas estão provocando uma mudança que pode fazer o produto sumir das prateleiras

 | André Rodrigues/Gazeta do Povo

André Rodrigues/Gazeta do Povo

Uma nova variedade de café chamada Centroamericano ainda não caiu nas graças de lojas como a Starbucks, mas pode ser o negócio mais interessante dos últimos tempos: uma planta capaz de resistir aos efeitos das mudanças climáticas.

As alterações no clima poderiam ser um desastre para o café, já que o fruto do cafeeiro exige temperaturas ideais para se desenvolver e é altamente sensível a pragas. Isso provocou uma corrida entre os cientistas para desenvolver uma solução para uma das bebidas mais adoradas do planeta.

Além da Centroamericano, outras sete variedades estão entrando gradualmente no mercado. E neste ano, a organização não governamental World Coffee Research (WCR – Pesquisa Global de Café) iniciou testes com outras 46 variedades que prometem mudar a forma como hoje se cultiva café no mundo.

“O café não está pronto para se adaptar às mudanças climáticas sem ajuda”, afirma Doug Welsh, vice-presidente da marca Peet’s Cooffe, uma das investidoras da pesquisa da WCR.

Segundo os meteorologistas, praticamente nenhuma região será poupada dos efeitos das alterações climáticas. A maior parte da safra global vem de regiões ao redor da Linha do Equador, sendo a maioria do Brasil, Vietnã, Colômbia, Indonésia e Etiópia.

O café e as altas temperaturas

O aumento das temperaturas ameaça reduzir as áreas cultiváveis da maioria desses países, afirma Christian Bunn, pós-doutorando do Centro Internacional de Agricultura Tropical que analisou as mudanças nas regiões cafeeiras. O ar mais quente obriga que o café seja plantado em regiões mais amenas e altas, algo escasso em países como o Brasil.

Mas a temperatura não é o único fator de impacto nas regiões produtoras. Em algumas partes da América Central são esperadas mais chuvas e estações secas mais curtas, que seriam necessárias para colher e utilizar os grãos secos. Já no Peru, no Equador e na Colômbia as chuvas devem diminuir ampliando períodos de seca.

“Os produtores de café estão vendo seus meio de subsistência ameaçados”,

Aaron Davis pesquisador de café britânico

Todas essas mudanças trazem problemas às lavouras. Contudo, o café é particularmente mais vulnerável, afirmam os cientistas, porque faz parte de um grupo genético fortemente restrito. Apenas duas espécies de café são atualmente utilizadas para o consumo humano: arábica e robusta. Por esses e outros motivos, poucas variedades do café arábica podem crescer em condições mais quentes ou úmidas. Além disso, doenças e pragas que podem aumentar durante as alterações climáticas ameaçam plantações inteiras.

Uma doença em particular preocupa os produtores e cientistas: a ferrugem do café, também conhecida como La Roya, termo em espanhol dado a uma enfermidade que devastou lavouras da América Central em 2011 e reduziu pela metade a produção cafeeira de El Salvador, provocando o desemprego de cerca de 1,7 milhão de pessoas.

Café: ameaça de extinção?

“Os produtores de café estão vendo seus meio de subsistência ameaçados”, afirma Aaron Davis, pesquisador de café britânico. “As áreas de café podem resistir de 20 a 30 anos, mas uma perda não permite ao agricultor fazer o replantio imediatamente, até porque o café pode levar três anos para amadurecer. Assim, os produtores podem passar anos sem renda até conseguir novas plantas de café. Nesses cenários, os produtores pagam caro”.

Ainda que poucos especialistas esperem que esses fatores levem o café à extinção, eles admitem que pode reduzir muito o fornecimento global – e aumentar as dificuldades para o cafeicultores.

“A maior preocupação da indústria é que a quantidade, e até mesmo o futuro, do café de boa qualidade esteja ameaçada pelas alterações climáticas”, afirma Benoit Bertran, agrônomo do grupo de pesquisa agrícola francês CIRAD, um dos mais respeitados pelos produtores de café. “Então surge a dúvida: como podemos contornar isso com novas tecnologias e inovações?”.

Aniele Nascimento/Gazeta do Povo

Apesar da popularidade do café, poucos produtores estão prontos para o desafio. Historicamente não há um mercado para inovações para pés de café. Bertrand e Davis explicam que, ao contrário das principais commodities como milho e soja, o café é produzido geralmente por pequenos agricultores, sem grandes margens para comprar as novas sementes disponíveis no mercado ou investir em inovações no sistema de plantio.

Como resultado, o café está atrasado em relação a programas de criação intensiva que vêm revolucionando outros cultivos. Nos últimos dez anos, o interesse no melhoramento das plantas aumentou, em grande parte pelo crescimento do mercado de café.

Traduzido por Giorgio Dal Molin / Confira a matéria completa aqui.

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